A porta de entrada para romper o ciclo da violência contra a mulher pode estar onde menos se imagina: no atendimento de rotina de um hospital. No Distrito Federal, a estratégia tem sido preparar profissionais de saúde para enxergar além da queixa apresentada e identificar sinais que, muitas vezes, passam despercebidos.
Com esse objetivo, o Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do DF (IgesDF) realizou, na última terça-feira (24), uma capacitação no Hospital Regional de Santa Maria (HRSM). A formação reuniu equipes assistenciais e reforçou a importância de reconhecer indícios de violência doméstica ainda nos primeiros contatos com a paciente.
A iniciativa parte de um cenário preocupante: casos de agressão frequentemente chegam aos serviços de saúde sem relato explícito. Em vez disso, aparecem por meio de sintomas fragmentados, que exigem atenção ampliada por parte das equipes.
Durante o treinamento, a assistente social Beatriz Sousa Liarte destacou que o olhar clínico precisa ir além do diagnóstico imediato. Segundo ela, situações de violência costumam se manifestar de forma indireta. “Na maioria das vezes, a mulher não verbaliza a agressão. O profissional precisa perceber padrões e conexões entre diferentes sinais para compreender o contexto”, explicou.
Entre esses sinais estão dores recorrentes, sem causa definida; consultas repetidas; ausência frequente a atendimentos; e comportamentos de controle exercidos por parceiros. Alterações na saúde sexual e reprodutiva, como infecções de repetição, lesões sem explicação clara e início tardio do pré-natal, também acendem o alerta.
Os impactos emocionais são outro ponto de atenção. Ansiedade, depressão, insônia e dificuldades de concentração aparecem como consequências comuns e exigem abordagem integrada.
A capacitação também reforçou que a forma de conduzir o atendimento pode definir o desfecho do caso. A orientação é adotar uma postura acolhedora, sem julgamentos, criando um ambiente seguro para que a paciente se sinta confortável para falar, se e quando estiver pronta.
Além do cuidado imediato, os profissionais são orientados a registrar detalhadamente as informações no prontuário e a realizar a notificação compulsória dos casos suspeitos ou confirmados. O procedimento é sigiloso e obrigatório, sendo essencial para o monitoramento da violência e a formulação de políticas públicas.
Nos casos mais graves, como violência sexual ou tentativa de suicídio, o prazo para notificação é de até 24 horas. Já as demais situações de violência doméstica devem ser comunicadas em até sete dias.
A medida ganhou força com a legislação federal que incluiu a violência contra a mulher na lista de agravos de notificação obrigatória, ampliando o papel da rede de saúde no enfrentamento do problema.
A formação no HRSM terá continuidade nos próximos dias, com novas turmas previstas para alcançar profissionais de diferentes plantões.
Ao investir na qualificação das equipes, o DF busca consolidar uma atuação mais estratégica: fazer do atendimento em saúde não apenas um espaço de cuidado, mas também um ponto decisivo de proteção e intervenção.





































