O sistema prisional do Distrito Federal tem se tornado um novo campo de formação para profissionais da saúde ao integrar residentes em um modelo que alia atenção básica e práticas integrativas. A proposta, considerada inovadora, amplia tanto a qualificação dos profissionais quanto as possibilidades de cuidado oferecidas à população privada de liberdade.
A iniciativa é conduzida pela Escola de Saúde Pública do Distrito Federal, em parceria com a Secretaria de Saúde do Distrito Federal, por meio da Residência Multiprofissional em Atenção Básica com Ênfase em Práticas Integrativas. Criado em 2025, o programa passou a incorporar unidades prisionais como cenário de aprendizagem, algo ainda raro no país.
Na prática, os residentes atuam em estruturas como a unidade instalada no Centro de Detenção Provisória, no Complexo Penitenciário da Papuda, onde lidam com uma rotina marcada por desafios específicos da atenção primária em ambiente restritivo.
Para a fisioterapeuta Thaysa Gabrielle Oliveira, a experiência exige mudança de perspectiva. “A gente percebe que precisa adaptar o olhar profissional e encontrar novas formas de atuação dentro desse contexto”, relata.
O programa reúne profissionais de diferentes áreas, como fisioterapia, nutrição, farmácia, terapia ocupacional e educação física, em um ciclo de formação de dois anos. A convivência com a realidade do sistema prisional também impacta a forma de enxergar o cuidado, como destaca a terapeuta ocupacional Yasmim Ferreira. “São intervenções simples, mas que fazem diferença concreta na rotina dos usuários”, afirma.
A inclusão desse cenário contou com o apoio da Secretaria de Administração Penitenciária do DF e da Vara de Execuções Penais, além das administrações das unidades prisionais. Segundo a coordenadora da residência, Thaís Lima, a medida fortalece tanto o ensino quanto a assistência. “Os residentes têm contato com uma realidade específica e, ao mesmo tempo, contribuem para ampliar as estratégias de cuidado dentro das unidades”, explica.
Entre essas estratégias, ganham destaque as práticas integrativas em saúde, que incluem técnicas voltadas ao relaxamento, ao controle do estresse e à promoção do bem-estar. A enfermeira Glaucia Tavares ressalta o potencial dessas abordagens. “São práticas que estimulam o autocuidado e acabam sendo compartilhadas entre os próprios internos”, diz.
Ela também destaca que os efeitos vão além do atendimento direto. “Mesmo quando não conseguimos medir exatamente, percebemos que o impacto se espalha dentro do ambiente prisional”, completa.
Reconhecidas pela Organização Mundial da Saúde, essas práticas fazem parte das políticas públicas de saúde e vêm sendo ampliadas no DF. Atualmente, o sistema conta com dez unidades básicas de saúde prisional, responsáveis por organizar o atendimento à população custodiada.
Como parte dessa evolução, foi implantado recentemente um horto medicinal em área próxima às unidades da Papuda. O espaço é utilizado para o cultivo de plantas voltadas a terapias complementares, contribuindo para diversificar os recursos terapêuticos disponíveis.
A experiência sinaliza uma mudança gradual no modelo de assistência dentro do sistema prisional ao combinar formação profissional, inovação e ampliação do cuidado em um ambiente historicamente desafiador.








































