Décadas depois de deixarem para trás a possibilidade de estudar, moradores do Distrito Federal estão encontrando uma nova oportunidade dentro da sala de aula. Em Ceilândia, um trabalho de alfabetização voltado a jovens, adultos e idosos tem alcançado principalmente pessoas que tiveram a trajetória escolar interrompida ou que nem chegaram a aprender a ler durante a infância.
Entre os estudantes está Jacira dos Santos, de 78 anos. Antes de chegar à sala de aula, ela atravessou diferentes fases da vida sem ter sido alfabetizada. Ainda criança, precisou assumir responsabilidades familiares. Depois, dedicou-se ao trabalho e à criação das sete filhas.
O início dos estudos provocou mudanças que ultrapassaram os limites da sala de aula. Com a alfabetização, Jacira ganhou independência para se locomover por Brasília sem precisar de companhia. A experiência também ampliou suas expectativas em relação à educação.
Ela decidiu que quer continuar estudando e colocou a universidade entre seus objetivos. O plano de avançar na formação contrasta com uma trajetória em que o acesso à escola permaneceu distante durante décadas.
Casos como o de Jacira fazem parte do cotidiano do Centro de Cultura e Educação Popular de Ceilândia. Segundo o presidente da instituição, Pedro Lacerda, mulheres com mais de 50 anos são maioria entre os alunos não alfabetizados atendidos pelo projeto.
A predominância está associada a um histórico em que as responsabilidades domésticas recaíram especialmente sobre as mulheres. Para Lacerda, cuidar dos filhos, manter a rotina da casa e trabalhar fora contribuíram para que muitas abandonassem os estudos ou não conseguissem iniciá-los.
A professora Patrícia Lourdes aponta outros fatores presentes na trajetória dos estudantes. Dificuldades financeiras, barreiras familiares e a falta de escolas acessíveis para quem vivia na zona rural estão entre as razões que impediram parte dos alunos de exercer o direito à educação quando eram mais novos.
A atuação do centro começou em 1989 e foi ampliada ao longo dos anos. Além da alfabetização, o trabalho envolve inclusão digital, formação de educadores populares e ações destinadas à continuidade da formação dos estudantes.
As atividades também chegam diretamente às comunidades. Há turmas no Sol Nascente, no Terreiro do Vô Congo Mãe Zenith d’Oxum e no acampamento Nova Jerusalém, estratégia que busca facilitar a participação de moradores dessas regiões.
Neste ano, o centro desenvolve ainda o Projeto LER, em parceria com a Universidade Federal de São Paulo e o Ministério da Educação. Outra frente é o cursinho popular destinado a estudantes que desejam disputar uma vaga no ensino superior.
A educação popular de Paulo Freire está entre as referências utilizadas pela instituição. O educador esteve em Ceilândia em 30 de agosto de 1996 para a instalação do 1º Fórum Regional de Alfabetização de Jovens e Adultos. Em 2012, tornou-se oficialmente patrono da educação brasileira, conforme estabelecido pela Lei nº 12.612.
Quase 30 anos depois daquela passagem por Ceilândia, o acesso à educação continua alcançando pessoas que tiveram esse direito adiado. Para Jacira, a sala de aula chegou aos 78 anos, mas os planos já avançam muito além da alfabetização.









































