A senadora Leila Barros (PDT-DF) errou. Tomou como verdade uma série de acusações publicadas pelo portal Vero Notícias contra veículos jornalísticos associados à Associação Brasileira de Portais de Notícias, a ABBP, e, sem checar a consistência do que estava sendo denunciado, levou o caso ao Ministério Público do Distrito Federal e Territórios. O MPDFT abriu um procedimento. Depois, arquivou — porque não havia nada ali.
A nota divulgada nesta segunda-feira (18) pelo gabinete da parlamentar é o reconhecimento tardio desse equívoco. Redigida em linguagem institucional, cuidadosa nos termos e comedida no tom, ela diz, nas entrelinhas, o que o texto formal não enuncia diretamente: a denúncia não devia ter sido feita. A matéria do Vero Notícias que motivou o acionamento do MP não tinha base, não tinham provas e, como se verificou após diálogo com os dirigentes da ABBP, não tinham qualquer materialidade que sustentasse uma investigação.
Entenda o caso
O portal Vero Notícias publicou matérias com acusações contra portais filiados à ABBP — entidade que reúne veículos jornalísticos independentes. O conteúdo chegou ao gabinete de Leila Barros, que encaminhou uma “notícia de fato” ao MPDFT — instrumento formal para comunicar possíveis irregularidades. Após conversa com dirigentes da ABBP, a senadora concluiu que não havia elementos para sustentar o pedido. O MP arquivou o caso ainda na fase preliminar.
O dano, porém, já estava feito. Portais que exercem jornalismo de forma séria, profissional e íntegra viram seus nomes arrastados para uma notícia de fato protocolada no Ministério Público — não por terem cometido qualquer irregularidade, mas porque um veículo construiu uma narrativa acusatória vazia e a senadora Leila Barros a tomou como verdade sem o filtro mínimo que o cargo exige. No ecossistema da informação, onde reputações se constroem devagar e se destroem rápido, esse tipo de dano não se desfaz com um arquivamento nos sistemas do MPDFT.
A nota de Leila Barros é, nesse sentido, uma tentativa de reparação — ainda que limitada pelo que o protocolo institucional permite dizer. Ao reafirmar “respeito à liberdade de imprensa” e ao elogiar a atuação “livre, responsável e independente” dos veículos de comunicação, a senadora está sinalizando, para quem quiser ler, que reconhece ter errado ao tratar como suspeitos justamente aqueles que fazem um trabalho jornalístico que merecia defesa, não perseguição.
O Ministério Público, de sua parte, agiu dentro do que a lei prevê: recebeu a comunicação, fez os levantamentos preliminares, constatou a ausência de materialidade e arquivou o procedimento com base no artigo 5º, parágrafo 2º, da Resolução nº 66/2005 do Conselho Superior do órgão. O fluxo institucional funcionou. O problema estava antes dele — na qualidade da informação que o acionou.
O caso expõe com clareza o perigo de narrativas acusatórias que circulam com aparência jornalística, mas sem o compromisso com a verdade que o jornalismo exige. Quando essas narrativas chegam a gabinetes parlamentares e são tratadas como denúncia legítima, o estrago vai além do equívoco de uma senadora: atinge diretamente quem faz, todos os dias, o trabalho honesto de informar.





































