Havia mais do que números no discurso. Na tarde deste 28 de março, na Praça da Bíblia, a despedida de Ibaneis Rocha do Governo do Distrito Federal ganhou contornos de memória, afeto e prestação de contas — como quem revisita, em voz alta, o próprio caminho antes de seguir adiante.
Do palco, Ibaneis não fez apenas um inventário de obras. Ele contou uma história , a dele com a cidade. E fez isso caminhando, ainda que em palavras, por regiões que durante anos estiveram à margem das prioridades do poder público.
Falou do tempo ou melhor, do tempo que as pessoas deixaram de perder. Lembrou quando trajetos levavam duas horas e hoje não passam de 15 ou 20 minutos. Citou viadutos, duplicações, acessos que, para quem vive longe do centro, significam mais do que mobilidade: significam vida reorganizada.
Mas foi quando mencionou o Sol Nascente que o discurso mudou de tom. Ficou mais pessoal, quase íntimo. “Quem vai lá hoje tem orgulho de onde mora”, disse. Não era apenas uma obra era uma tentativa de reescrever a identidade de um lugar historicamente estigmatizado.
Ali, o governador não falava só como gestor. Falava como alguém que queria ser reconhecido por ter mudado destinos.
Ao longo da fala, esse sentimento apareceu outras vezes. Na história da mulher que chorou ao receber a chave da casa própria. Nos produtores rurais que, depois de décadas, puderam segurar uma escritura nas mãos. Nos trabalhadores da saúde, lembrados com um respeito que carregava o peso dos anos da pandemia de COVID-19.
Houve números , muitos. 7 UPAs construídas, 6 hospitais em andamento, milhares de atendimentos, 3 refeições servidas diariamente nos restaurantes comunitários a preços simbólicos. Mas, curiosamente, foram as pausas e os desvios do roteiro que deram o tom da despedida.
Ibaneis se permitiu lembrar, agradecer, reconhecer.
E isso diz muito.
Porque, ao fim de um governo, o que fica não é apenas o que foi entregue , mas a forma como quem governou escolhe contar essa história. E, neste sábado, ele escolheu contar com emoção controlada, com orgulho evidente e com uma tentativa clara de conexão.
Na Ceilândia, uma das regiões mais simbólicas do DF, que celebrava 55 anos a escolha do cenário também falou por si. Era ali, diante de um público que representa boa parte das transformações citadas, que fazia sentido encerrar o ciclo.
Sem anúncios formais, sem discursos de campanha, mas com um subtexto inevitável: o de quem não está deixando a vida pública, apenas mudando de lugar dentro dela.
Ao descer do palco, ficou a sensação de não de fechamento mais o de nos vemos em um outro momento. Como quem sabe que governar é, no fim das contas, ser lembrado pelas marcas que deixou nas pessoas.
E, naquele momento, mais do que agradecer, Ibaneis foi reconhecido.





































