O resultado das urnas de 2026 produziu uma marca histórica para as mulheres na política brasileira, mas também deixou evidente o tamanho do caminho que ainda falta percorrer. A próxima legislatura terá mais parlamentares mulheres do que qualquer outra desde a redemocratização, porém elas continuarão ocupando pouco mais de uma em cada cinco cadeiras do Congresso.
A mudança será perceptível principalmente na Câmara dos Deputados. A partir do próximo ano, 109 mulheres terão mandato na Casa. Em 2022, eram 90. O crescimento de 19 cadeiras ocorre mesmo com uma participação menor de mulheres nas disputas eleitorais.
O número de candidatas caiu de 3.317 para 2.820 entre uma eleição e outra. Ainda assim, a proporção de eleitas aumentou, fazendo a bancada feminina chegar a 21% da Câmara, que possui 513 deputados.
O Senado também registrará uma marca inédita. Das 54 vagas renovadas neste ciclo eleitoral, 12 foram conquistadas por mulheres. Com a manutenção das parlamentares que já possuem mandato, a Casa passará a ter 18 senadoras entre seus 81 integrantes.
A diferença em relação ao cenário atual é de três cadeiras. Em 2018, na última eleição em que dois terços do Senado também foram renovados, oito mulheres haviam sido eleitas.
O novo mapa feminino do Senado terá ainda uma particularidade no Distrito Federal. Duas mulheres foram escolhidas neste ano e se juntarão à representante que já ocupa uma das três cadeiras da unidade. Com isso, o DF será a única unidade da Federação a contar com três senadoras.
O aumento, contudo, não se distribui de maneira uniforme pelo país. O Piauí seguirá sem nenhuma mulher eleita para o Senado desde a redemocratização, permanecendo como o único estado nessa situação.
Na Câmara, a presença feminina também será marcada pela distribuição partidária. A federação formada por PT, PCdoB e PV elegeu 34 das 109 deputadas que estarão na próxima legislatura.
Mais mulheres no Parlamento, porém, não significa necessariamente mais consenso em torno das reivindicações femininas. A professora de Ciência Política da Universidade de Brasília Flávia Biroli chama atenção justamente para esse ponto.
Para a pesquisadora, o crescimento numérico também aumenta a diversidade política entre as próprias parlamentares. Mulheres de diferentes posições ideológicas podem chegar ao Congresso e ter entendimentos distintos sobre políticas de igualdade.
Biroli cita a senadora Bia Kicis como exemplo. A parlamentar, segundo a professora, votou contra a lei que estabelece a igualdade salarial entre mulheres e homens.
O recorte racial mostra outra face desse processo. Na Câmara, o avanço foi expressivo entre as mulheres negras. Levantamento da organização Mulheres Negras Decidem identificou pelo menos 15 eleitas para deputada federal em 2026, contra nove em 2022.
O crescimento de 66,6% é acompanhado por uma renovação geracional. Coordenadora política da organização, Tainah Pereira destaca que muitas das novas parlamentares negras são jovens e chegam ao Congresso pela primeira vez.
No Senado, entretanto, a fotografia é diferente: nenhuma das 12 mulheres eleitas neste ano é negra.
A atual senadora Eliziane Gama (PT), do Maranhão, não conseguiu a reeleição. Autodeclarada negra, ela deixará a Casa ao fim do mandato. Também não avançaram nas urnas Mariana Silva (Rede), que disputou por São Paulo, e Benedita da Silva (PT), candidata pelo Rio de Janeiro.
Mariana já havia ocupado uma cadeira no Senado pelo Acre entre 1995 e 2011. Benedita, por sua vez, foi a primeira mulher negra eleita para o Senado, em 1998.
Desde então, somente quatro mulheres negras chegaram ao Senado. O resultado de 2026, portanto, cria um paradoxo: o Congresso terá sua maior bancada feminina, mas a expansão ainda não significa uma representação proporcional nem contempla de forma equilibrada a diversidade racial entre as mulheres.









































