Na manhã desta quarta-feira 27/05, o Comando-Geral do Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal abriu as portas para representantes da Associação Brasileira de Portais de Notícias-ABBP, com uma missão clara: apresentar o planejamento da Operação Verde Vivo 2026 e, principalmente, lançar um alerta que vai além dos mapas de calor e das escalas de sobreaviso.
Reunidos na sede da corporação, o Comandante-Geral, Cel. A. Barcelos, o Subcomandante-Geral, Cel. Murilo, o Comandante de Proteção Ambiental e Civil, Cel. Ronaldo, e o Comandante do Grupamento de Proteção Ambiental, Ten. Cel. Marcelino, detalharam um planejamento logístico robusto, com escalas extras prontas para ser ativadas conforme o avanço da estiagem e atenção redobrada aos impactos do El Niño na região Centro-Oeste. Mas, no meio de tantos números e estruturas operacionais, uma frase do Ten. Cel. Marcelino resumiu o que a corporação considera seu maior desafio neste e em todos os anos:
“A informação e a conscientização são o que mais importa hoje. É um serviço à sociedade — e também nos ajuda muito na prevenção.”
O recado parece simples. Mas carrega uma admissão importante: depois de décadas evoluindo em equipamentos, treinamento e capacidade de resposta, o maior gargalo da luta contra os incêndios florestais no DF continua sendo algo que nenhum investimento operacional resolve sozinho — a consciência da população.
Para entender o peso dessa admissão, é preciso olhar para o caminho que a corporação percorreu. Não faz tanto tempo que os bombeiros do DF enfrentavam o Cerrado em chamas enrolando a própria camisa no rosto como proteção. Sem capacete, sem equipamento especializado, sem aeronave, sem imagem de satélite. “A gente apagava fogo com abafador, fazendo contra-fogo, com enxada”, lembrou o Subcomandante-Geral, Cel. Murilo, durante a apresentação.
Hoje, a realidade é completamente diferente. A operação conta com viaturas importadas de Portugal projetadas especificamente para os piores incêndios florestais. Drones de última geração monitoram o território em tempo real. Trezentos profissionais trabalham num centro de gerenciamento ambiental que funciona todos os dias durante a temporada. Um sofisticado Sistema de Comando de Incidentes integra Polícia Militar, Defesa Civil, Ibama, IBram e outros órgãos numa única estrutura coordenada.
“A gente tem hoje a capacidade de mobilização de em torno de 1.500 pessoas por dia“, explicou o Ten. Cel. Marcelino. “E ainda assim o incêndio florestal continua acontecendo. Porque o problema principal não está na nossa capacidade de resposta.”
Está, segundo ele, antes disso. Muito antes.
A maior parte dos incêndios que a Operação Verde Vivo atende no DF não é causada por raios, nem pelo calor extremo, nem pelo vento. É causada por pessoas. Queimadas em terrenos para limpar a vegetação, fogueiras mal apagadas, bitucas de cigarro jogadas pela janela do carro e incêndios provocados intencionalmente — muitas vezes associados à especulação imobiliária nas áreas rurais do DF — estão entre as principais origens das ocorrências atendidas ano após ano.
“O Cerrado vai queimar”, disse o Cel. Murilo com franqueza. “A ação do homem amplifica essa situação. O El Niño pode amplificar. Mas sem a ação humana, a gente teria um cenário muito diferente.”
É um ponto que a corporação não esconde e que a própria estrutura da Operação Verde Vivo 2026 reconhece. Das seis fases que compõem o plano — que vai de abril até dezembro, período coberto pelo decreto de emergência ambiental do DF — a primeira é inteiramente dedicada à prevenção e à educação. Capacitações para chacareiros em todo o DF, apoio a queimas prescritas em parques ecológicos, blitz ambientais em pontos estratégicos. Tudo isso acontece antes de um único foco de incêndio ser registrado.
Mas o Ten. Cel. Marcelino é direto ao apontar onde essa frente ainda patina. “A gente tem investido muito em qualidade de informação e conscientização.”
A prevenção que depende de cada um
A estratégia do CBMDF para tentar virar esse jogo passa por múltiplas frentes. As redes sociais da corporação são usadas para campanhas de conscientização durante toda a temporada. O diálogo com escolas, por meio de programas de educação ambiental, tenta criar uma cultura de preservação desde cedo. E a corporação já estuda a criação de brigadas voluntárias em comunidades de maior incidência de queimadas.
O problema, reconhecem os próprios comandantes, é que a conscientização é um processo lento — e a estiagem não espera. Este ano, o cenário é ainda mais delicado: os modelos meteorológicos apontam até 90% de chance de ocorrência do El Niño, com previsão de estiagem mais prolongada, temperaturas mais altas e ondas de calor mais frequentes para o Centro-Oeste. Qualquer descuido humano terá consequências amplificadas — e é exatamente por isso que a corporação já estruturou escalas extras prontas para ativação conforme o nível de criticidade climática avança.
“A gente acompanha o monitoramento diariamente e mantém a operação flexível”, explicou o Ten. Cel. Marcelino. “Mas o El Niño é um fator que a gente não controla. O comportamento da população é um fator que a gente pode — e precisa — influenciar.”
Há uma cena que resume bem onde está esse desafio. Durante o encontro desta quarta, o Cel. Murilo lembrou que, há alguns anos, a corporação não tinha nem farda adequada para o combate florestal. Hoje, tem tudo. E mesmo assim foi taxativo: “A nossa maior vitória é quando a gente nem precisa ser acionado.”
Para que isso aconteça com mais frequência, os bombeiros deixam claro que precisam de um parceiro decisão de cada morador do DF de não atear fogo, de ligar para o 193 ao ver indicios de incêndios, de não jogar bituca pela janela, de não queimar lixo no quintal.
“A gente não atua sozinho”, reforçou o Ten. Cel. Marcelino. “A gente atua com órgãos, com parceiros, com a sociedade. E a sociedade é a parte mais importante dessa equação.”
A Operação Verde Vivo 2026 está de prontidão. O Cerrado, mais uma vez, depende de todos.





































