O Distrito Federal registrou em 2025 um aumento expressivo no número de recém-nascidos submetidos ao teste do pezinho na rede pública. Foram 39.891 exames realizados, mais de 3 mil a mais do que em 2024. O avanço é atribuído à ampliação das doenças rastreadas e à procura crescente de famílias da rede privada pelo serviço oferecido nas unidades básicas de saúde (UBSs).
O crescimento reflete mudanças estruturais no programa de triagem neonatal do DF nos últimos anos. Desde 2019, o sistema passou a incorporar novas doenças ao rastreamento, incluindo enfermidades lisossômicas e imunodeficiência combinada grave. Em 2021, foram acrescentadas a atrofia muscular espinhal (AME) e outras condições previstas na Lei Federal nº 14.154, que ampliou gradualmente o rol mínimo nacional. Hoje, o DF está na etapa mais avançada da legislação e rastreia cerca de 62 doenças, figurando entre as redes públicas com maior cobertura no país.
Segundo o médico Lourenço Evangelista, assessor técnico do Laboratório Especializado em Triagem Neonatal, a ampliação do escopo tornou o serviço público mais atrativo inclusive para usuários da rede privada. Muitas famílias passaram a buscar as UBSs após a alta hospitalar porque o teste oferecido pelo SUS local abrange um número maior de doenças do que os exames disponíveis em planos de saúde. O número de coletas feitas em unidades básicas — em grande parte de bebês nascidos em hospitais privados — saltou de pouco mais de 3 mil para mais de 5 mil no último ano.
Entre as doenças incorporadas recentemente estão defeitos primários da imunidade e a atrofia muscular espinhal, condição neuromuscular grave, mas com possibilidade de tratamento quando identificada precocemente. O laboratório já diagnosticou 14 casos de AME, alguns ainda sem sintomas no momento da triagem. De acordo com Evangelista, a detecção antecipada permite iniciar o tratamento antes do aparecimento de sinais clínicos, o que reduz sequelas e amplia a expectativa de qualidade de vida. Também foram incluídas doenças lisossômicas de depósito, um grupo de distúrbios metabólicos que podem provocar danos neurológicos e sistêmicos.
A vice-governadora Celina Leão atribui o avanço a políticas iniciadas ainda quando atuava no Legislativo local. Ela lembra que foi autora do projeto que ampliou o teste do pezinho no DF, hoje incorporado à rede pública. Para a gestora, a triagem neonatal reforça a prevenção e garante diagnóstico precoce, considerado decisivo para o tratamento de doenças raras na infância.
Como funciona a triagem
O Programa de Triagem Neonatal recebe, em média, cerca de 4 mil amostras por mês. As coletas são feitas em hospitais, maternidades, casas de parto e UBSs da Secretaria de Saúde. Na rede privada, como não há logística própria de envio ao laboratório público, os pais geralmente realizam a coleta nas unidades básicas após a alta do bebê.
A primeira amostra costuma ser colhida entre 24 e 48 horas após o nascimento. Prematuros e crianças internadas em UTI seguem protocolos específicos, com até três coletas em momentos diferentes. Cada cartão de amostra recebe um código único, que acompanha todo o histórico do paciente, especialmente em casos de diagnóstico positivo.
Quando há suspeita de alteração, a família é acionada para levar a criança diretamente ao serviço especializado. A medida busca reduzir o tempo entre a coleta e a confirmação do exame, já que o início rápido do tratamento é determinante em várias das doenças rastreadas.
A bióloga Gabriella Vasconcelos, que atua no programa, afirma que a triagem envolve controle rigoroso em todas as etapas, da coleta ao transporte refrigerado das amostras. Segundo ela, o diagnóstico precoce pode mudar radicalmente o prognóstico. Crianças que, sem identificação da doença, teriam risco de morte ou dependência de suporte vital conseguem, com tratamento oportuno, desenvolver uma rotina próxima da normalidade.









































