A ciência produzida no Hospital da Criança de Brasília José Alencar (HCB) tem um traço marcante: ela é construída, em sua maioria, por mulheres. Ao longo de mais de 14 anos de atuação, a instituição consolidou uma produção científica diretamente vinculada à assistência pediátrica, com protagonismo feminino nos projetos de pesquisa, na formação acadêmica e nos resultados publicados.
O cenário ganha ainda mais relevância no Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, celebrado na última quarta-feira (11), em um momento em que o Brasil avança na formação de pesquisadoras, mas segue enfrentando desigualdades quando o debate alcança os espaços de liderança e reconhecimento científico.
No HCB, a pesquisa não ocupa um lugar periférico. Ela integra a rotina hospitalar e está conectada ao cuidado oferecido às crianças atendidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Médicas, enfermeiras, biomédicas, biólogas e estudantes atuam de forma integrada em um ambiente que estimula a investigação científica aplicada às demandas reais da saúde pública pediátrica.
Os dados da própria instituição dimensionam esse protagonismo. Atualmente, 76% dos profissionais envolvidos em pesquisa científica e clínica no hospital são mulheres. Em 2025, elas lideraram 21 dos 28 artigos científicos publicados pelo HCB. Desde a criação do Programa de Iniciação Científica, em 2015, 51 mulheres foram contempladas, dentro de um universo de 70 profissionais participantes.
Esse desempenho contrasta com o cenário nacional. Informações do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), divulgadas em 2025, mostram que as mulheres já são maioria entre bolsistas de mestrado e doutorado no país. No entanto, apenas cerca de 35,5% das bolsas de produtividade e dos cargos de liderança em pesquisa são ocupados por mulheres, evidenciando um gargalo persistente no acesso aos espaços de decisão científica.
Para a médica Isis Magalhães, oncologista pediátrica, doutora em Ciências da Saúde pela Universidade de Brasília (UnB) e integrante do grupo fundador do HCB, a força da produção científica da instituição está justamente na ligação direta entre pesquisa e prática assistencial.
“A pesquisa nasce do cuidado. As perguntas surgem da rotina hospitalar e o conhecimento produzido retorna em forma de melhorias concretas para o tratamento das crianças”, afirma a médica, que atualmente ocupa os cargos de diretora técnica e diretora interina de Ensino e Pesquisa.
Isis ressalta que a criação do hospital partiu da compreensão de que doenças complexas exigem estruturas especializadas dentro da rede pública, capazes de reunir assistência, ensino e inovação científica em um mesmo espaço.
A Gerência de Pesquisa do HCB é conduzida pela enfermeira Cristiane Salviano, doutora em Enfermagem pela UnB, que iniciou sua trajetória profissional na assistência direta aos pacientes pediátricos. Hoje, ela coordena projetos voltados à cooperação com universidades, centros de pesquisa e agências de fomento, fortalecendo a formação científica em diferentes níveis.
Segundo Cristiane, a pesquisa amplia a qualificação dos profissionais e contribui para uma visão mais abrangente do cuidado infantil. “Não se trata apenas de procedimentos ou medicamentos. Investigamos também qualidade de vida, cuidado humanizado e outros fatores que interferem diretamente no prognóstico das crianças”, explica.
Para Isis Magalhães, manter a dimensão humana da ciência é um princípio inegociável. “Cada amostra analisada carrega uma história real. Existe uma criança, uma família e uma expectativa de futuro por trás de cada estudo”, afirma.
Ao reunir produção científica qualificada, protagonismo feminino e compromisso com as demandas do SUS, o Hospital da Criança de Brasília se consolida não apenas como referência em saúde pediátrica, mas como exemplo de que ciência, equidade de gênero e interesse público podem caminhar juntos — e gerar impacto real na vida das pessoas.





































