A nova fase da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal nesta quinta-feira (18), acrescentou uma variável política a uma investigação que, até aqui, estava concentrada nas suspeitas de irregularidades envolvendo o Banco Master.
Ao cumprir mandados em endereços ligados ao empresário Augusto Ferreira Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro e atual marido de Flávia Peres, a operação acabou recolocando no radar uma personagem que havia deixado de ocupar o centro da cena política nacional.
O fato, por si só, não teria maiores implicações eleitorais. Mas Brasília raramente separa investigações de biografias.
Flávia Peres não é alvo, até o momento, de acusação formal na operação. Tampouco José Roberto Arruda aparece entre os investigados. Ainda assim, a repercussão do caso produz um efeito conhecido na política do Distrito Federal: reativa conexões que resistem ao tempo.
Na avaliação de interlocutores que acompanham os bastidores da política local, esse é o principal impacto da nova fase da investigação. Não pelo conteúdo jurídico da operação, mas pelo simbolismo que ela desperta.
Flávia construiu uma trajetória própria. Foi deputada federal, ocupou a Secretaria de Governo durante a gestão Jair Bolsonaro e, após o casamento com Augusto Ferreira Lima, passou a adotar o sobrenome Peres. Ainda assim, sua imagem pública permanece fortemente associada ao período em que ficou conhecida como Flávia Arruda, então primeira-dama do Distrito Federal durante o governo Arruda.
É justamente essa associação que volta à superfície.
Os mandados autorizados pelo ministro André Mendonça alcançaram endereços ligados a Augusto Ferreira Lima, empresário que já havia aparecido em etapas anteriores da investigação sobre o Banco Master. A Polícia Federal apura suspeitas de lavagem de dinheiro, corrupção e operações financeiras consideradas irregulares envolvendo empresas relacionadas ao antigo quadro societário da instituição financeira.
Não por acaso, reportagens publicadas ao longo do dia voltaram a reconstruir sua trajetória política. Em análise de Miriam Leitão, O Globo relembrou que Flávia foi casada com José Roberto Arruda durante o período que antecedeu a Operação Caixa de Pandora, escândalo que redefiniu a política do Distrito Federal e marcou de forma permanente a imagem de José Roberto Arruda.
É aí que o caso deixa de ser apenas policial e passa a produzir efeitos políticos.
Arruda tenta a todo custo manter presença no debate público mas sua trajetória ainda é frequentemente interpretada à luz dos acontecimentos que marcaram sua passagem pelo Palácio do Buriti.
Nesse contexto, a reaparição de Flávia Peres no noticiário não produz desgaste por envolver uma acusação contra ela — porque, até aqui, ela não existe. O impacto decorre da capacidade que determinados personagens têm de reativar memórias políticas.
Na política, memória também é ativo eleitoral. Ela molda percepções, influencia narrativas e muitas vezes resiste às mudanças da vida pessoal. Flávia mudou de sobrenome, constituiu outra família e construiu um percurso próprio. Arruda seguiu outro caminho.
Mas a lembrança construída ao longo de quase duas décadas da política brasiliense continua operando.
É por isso que, mesmo sem qualquer vínculo com os fatos investigados, o ex-governador volta a ser citado sempre que Flávia reaparece em episódios de grande repercussão. No imaginário de parte do eleitorado do Distrito Federal, os dois continuam pertencendo à mesma fotografia política.
E esse talvez seja o principal efeito colateral da nova fase da Compliance Zero: mostrar que, em Brasília, as investigações seguem seu curso. A memória política também.






































