O debate da Globo entre candidatos ao Governo do Distrito Federal, na terça-feira (29), foi uma oportunidade desperdiçada. Leandro Grass (PT), Ricardo Cappelli (PSB), Paula Belmonte (PSDB) e Kiko Caputo (Novo) tinham diante de si o que nenhuma campanha consegue comprar: audiência atenta a quatro dias da urna. Usaram o tempo para falar da candidata ausente, Celina Leão (PP), líder de todas as pesquisas.
Uma cadeira vazia com holofote
A regra da emissora permitiu que os candidatos fizessem perguntas a quem não compareceu, e cada um teve 30 segundos para dirigir a sua a Celina. O resultado foi um debate em que a ausente falou sem abrir a boca. Mas o que se ouviu foram slogans, e o tema virou munição de horário nobre, não plataforma de solução.
Sem o alvo principal por perto, o que sobrou foi um coro que soou ensaiado. Na avaliação desta coluna, a sensação foi de roteiro combinado, com adversários que deveriam competir entre si mas convergiram para o mesmo ponto. Quando o alvo faltou, a artilharia voltou-se para os próprios colegas de palco, e o eleitor, que assistia atrás de uma explicação, ganhou um espetáculo.
O ataque pessoal e o preço que a política paga
Há uma linha que o debate político não deveria cruzar. Critica-se gestão, cobra-se resultado, exige-se transparência. Não se mira a vida pessoal e familiar de quem não está presente para responder. Além de injusto, é ineficiente: o eleitor percebe, desconfia e passa a duvidar de quem ataca. Para mulheres na vida pública, o peso desse tipo de ofensiva é conhecido, e por isso o alerta vale para qualquer lado do espectro político.
Conta dos números
A Quaest, encomendada pela própria Globo e divulgada no mesmo dia, mostra Celina com 39%, cinco pontos acima da pesquisa anterior, quando tinha 34%. Grass aparece com 23%, Belmonte com 9%, Caputo com 5% e Cappelli com 3%. Num segundo turno entre Celina e Grass, a pesquisa indica 54% a 31%. Segundo levantamentos, o desinteresse teria aparecido até na audiência da emissora, dado que reforça a leitura de que o público percebeu que o debate não entregou o prometido.
Decisão que se confirmou
A campanha de Celina Leão decidiu pela ausência e a escolha se mostrou acertada. Com liderança consolidada e apenas cinco meses de mandato, a governadora evitou um formato que, pelo que se viu, pouco acrescentaria ao eleitor. Seus adversários, sem perceber, reforçaram a decisão: o debate não trouxe nada que justificasse o risco de estar lá.
Para que serve um debate
Numa democracia, o debate é uma das últimas vitrines de ideias antes do voto. É onde o eleitor compara planos, testa consistência e decide, principalmente se estiver indeciso. Quando a pauta vira o adversário, e não o programa de governo, o eleitor sai da noite sabendo menos do que sabia ao entrar. O prejuízo não é dos candidatos, é da democracia.
O brasiliense é um dos eleitores mais informados do país. Não tolera mais teatro. Quer projeto concreto, solução que caiba no orçamento e compromisso com a realidade da cidade, sem promessa mirabolante que todos sabem impossível de cumprir.
Recado que fica
A memória do eleitor não falha. Ele lembra de quem chegou com plano e de quem chegou só com adjetivo. Lembra de quem falou do futuro do DF e de quem passou a noite falando de outra pessoa. No domingo (4), cada voto será a resposta que o debate não conseguiu dar.
O microfone estava ligado. Cabe agora ao eleitor dizer quem tinha algo a dizer.










































