No debate da TV Globo, em 29 de setembro, Paula Belmonte (PSDB) afirmou que “Brasília não aguenta mais o PT”. Dias depois,mais especificamente na sexta-feira (2), publicou um vídeo ao lado de Erika Kokay (PT), elogiou a atuação da petista na Câmara, onde as duas conviveram, e declarou apoio à candidatura dela ao Senado. Erika respondeu: “Obrigada, Paula. Tô querendo muito”.
O problema não é o elogio. É a soma de três fatos: o que Paula Belmonte disse no debate, o que mostrou dias depois e o que precisou explicar horas mais tarde.
O mesmo partido, dois papéis
Há um detalhe que a defesa da candidata não resolve. O principal adversário de Paula na disputa pelo governo, Leandro Grass, é do PT. Ela pede ao eleitor que rejeite o partido no Palácio do Buriti e, na mesma semana, pede que ele considere uma petista para o Senado. Ou o PT é um problema para Brasília, ou é uma opção legítima para representá-la. A campanha tentou sustentar as duas coisas ao mesmo tempo.
A justificativa disponível é a da convivência: Paula e Erika foram colegas na Câmara, e reconhecer o trabalho de uma adversária é gesto civilizado. Em outro momento, isso se sustentaria. Mas reconhecimento pessoal não exige gravação, publicação nas redes e pedido de atenção ao nome de Erika a poucas horas da votação. Quem grava com a adversária e posta escolhe o formato do apoio. Chamar de cortesia o que foi desenhado como sinalização é um esforço de semântica que o eleitor não costuma comprar.
Se foi apoio, houve contradição frontal com o discurso do debate. Se não foi, houve erro de comunicação grosseiro, porque a Paula Belmonte montou uma cena de endosso sem querer endossar. Em ambos os casos, a pergunta que o segundo vídeo não responde permanece: qual era a lógica de gravar com uma figura do campo oposto?
Horas depois do primeiro vídeo, e depois de uma enxurrada de críticas nos comentários de páginas e perfis que replicaram o material, Paula publicou outro vídeo para esclarecer. Esse movimento diz mais do que a própria explicação. Ele indica que a reação negativa, e não a convicção, definiu a segunda mensagem. Quando o esclarecimento nasce da pressão, ele chega como remendo. E o eleitor, que já tinha visto a cena, não espera a legenda para formar opinião.
O cálculo que não fecha
A pesquisa Igape de 2 de outubro dava a Paula 11,1% dos votos válidos, contra 55% de Celina Leão (PP) e 26,2% de Grass (PT). Com esse quadro, qualquer gesto precisa render voto novo ou preservar o que já existe. O vídeo não parece fazer nenhuma das duas coisas. Para o eleitor antipetista, que era o alvo natural do discurso do debate, é um sinal de ruptura. Para o eleitor de esquerda, que dificilmente migraria para ela, é um gesto sem retorno. Sobra um ruído que expõe a candidata sem entregar ganho claro.
Além disso, a campanha tentou ampliar espaço até entre eleitores ligados ao ex-governador José Roberto Arruda, fora da disputa por decisão da Justiça Eleitoral. Era um público que o discurso contra o PT ajudava a atrair. O vídeo com Erika caminha na direção oposta.
O que fica
Não há ilegalidade, e ninguém está proibido de elogiar adversário. A questão é de coerência, o capital mais difícil de recuperar numa campanha curta. Paula passou semanas construindo uma posição e a contradisse em um vídeo de poucos segundos.
Foi esse o erro: achar que um gesto desses pudesse ser corrigido depois com palavras. Imagem não pede legenda. Duas candidatas de campos opostos lado a lado, uma agradecendo o apoio da outra, dizem tudo o que o eleitor precisa saber, e nenhuma nota de esclarecimento tem força para desdizer. A eleição é amanhã, e as urnas dirão o custo. Mas a cena, essa, já está registrada.










































