A política é movimento. Está sempre em transformação, como dizia Magalhães Pinto, comparando-a a nuvens: “Política é como nuvem. Você olha e ela está de um jeito. Olha de novo e ela já mudou.” Mas essa lógica de fluidez , cíclica, dinâmica, orgânica parece encontrar resistência em um setor onde, curiosamente, se prega a renovação com fervor: a esquerda.
Em várias assembleias legislativas estaduais, na Câmara dos Deputados e na CLDF é cada vez mais comum encontrar figuras históricas da esquerda que há décadas ocupam o mesmo espaço, com poucas ou nenhuma tentativa de migração para outros cargos eletivos ou abertura para o surgimento de novas lideranças.
A pergunta que não quer calar: não há, entre a militância, quadros preparados para ocupar essas posições? Ou o espaço está restrito aos mesmos nomes que, eleição após eleição, se perpetuam no mesmo cargo sob a justificativa tácita de que “em time que está ganhando não se mexe”?
O problema é que essa lógica tem mais a ver com a zona de conforto do que com a eficácia eleitoral. Em vez de construir trajetórias políticas que amadureçam novas lideranças, o que se vê é uma espécie de blindagem interna, onde a renovação, apesar de desejada no discurso, é evitada na prática.
Não são poucos os parlamentares que, mesmo com forte atuação local, preferem manter-se nas cadeiras de sempre, ainda que isso signifique estagnar a oxigenação dos partidos e limitar a diversidade de vozes no debate público. O medo de “trocar o certo pelo incerto” parece maior do que a vontade de ampliar o alcance das pautas e ideias progressistas em outros espaços institucionais.
Por que disputar uma das oito cadeiras da bancada federal do DF, por exemplo, quando a reeleição para uma das 24 vagas distritais está praticamente garantida? A matemática eleitoral é compreensível, mas o custo político da estagnação também deve ser considerado.
A renovação não é apenas um capricho é uma necessidade vital para qualquer projeto político que se pretenda representativo, plural e duradouro. Manter os nomes por décadas no mesmo cargo pode soar como estabilidade para alguns, mas tende a se aproximar do comodismo.
E nesse jogo, o discurso pela diversidade, inclusão e participação popular, tão presente na narrativa da esquerda, corre o risco de se tornar retórica vazia se não vier acompanhado de abertura real para novos rostos, vozes e trajetórias.
Afinal, como ensinar renovação se a prática cotidiana ensina permanência?







































