O vídeo publicado pelo ex-governador Ibaneis Rocha (MDB) nesta quarta-feira (21) tem mais de um destinatário. A primeira — a mais óbvia, a que os holofotes capturaram de imediato — é a governadora Celina Leão (PP). O segundo, menos visível, mas igualmente relevante, é o Palácio do Planalto. Para entender o movimento, é preciso ler além das falas. É preciso ler o cenário.
Ibaneis escolheu a palavra “realinhamento” para descrever o que fez. Negou rompimento. Falou em “decepção”. Mas a composição da cena — ele ao lado do presidente nacional do MDB, Baleia Rossi, do presidente da Câmara Legislativa do DF, Wellington Luiz, e do deputado federal Rafael Prudente — disse mais do que qualquer eufemismo. Quando um ex-governador convoca a cúpula nacional do seu partido para gravar um vídeo, o gesto raramente é apenas local.
A fala que entregou o jogo
A chave para compreender o alcance do movimento está numa frase do presidente nacional do MDB. Ao tomar a palavra no vídeo, Baleia Rossi foi direto: “Não há hipótese do MDB não participar da chapa majoritária, pela sua história, pelo que fez nos últimos anos.”
A declaração, apresentada como defesa natural do partido, carrega uma dimensão estratégica que vai além do DF. O MDB é hoje um dos pilares da base de sustentação do governo Lula no Congresso. Ocupa ministérios estratégicos na Esplanada. E vinha acumulando um incômodo crescente com o distanciamento entre Ibaneis Rocha e o governo federal — um distanciamento que, nos bastidores, já havia gerado atritos entre o diretório nacional do partido e o ex-governador.
O vídeo foi, portanto, simultaneamente um ultimato local a Celina Leão e um aceno cirúrgico ao Palácio do Planalto. A própria composição da imagem entregava o jogo: ao emoldurar Ibaneis com a cúpula nacional e regional do MDB, o gesto político ganhou verniz institucional e as bênçãos de Brasília. Nesse arranjo, o silêncio polido do deputado federal Rafael Prudente — que assistiu a tudo sem dar uma única palavra — funcionou como o consentimento mais barulhento da cena.
O “realinhamento” de Ibaneis é, na prática, o resgate de um pragmatismo que o MDB domina como poucos. Ao reabrir os canais com o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, o ex-governador reposiciona as peças no tabuleiro do Distrito Federal.
Celina Leão respondeu com a firmeza que tem marcado sua gestão: serenidade no tom, clareza no recado. “Sucessão nunca será submissão”, disse ela. A frase ecoou forte. Mas a leitura daquela foto de família emedebista já havia produzido seu efeito: o tabuleiro político da capital federal acabou de mudar sob a bênção velada do Planalto .





































