A política é, por excelência, uma ciência de construção coletiva. Nenhum líder atravessa os corredores do poder sozinho, tampouco consolida uma trajetória sólida pautada na autossuficiência. Vitórias expressivas exigem pontes, portas abertas e, acima de tudo, a capacidade contínua de cativar aliados e dialogar com os múltiplos atores do debate público.
No entanto, o sinal emitido no último domingo (02),na convenção do Partido Liberal (PL) no Distrito Federal aponta para uma tática perigosa de fechamento. Sob o comando da deputada federal Bia Kicis, o evento foi marcado pela restrição explícita a veículos da mídia alternativa, portais regionais e blogs locais, além de um visível distanciamento em relação a correligionários ,deputados distritais em busca de reeleição.
O contraste de posturas escancara um contrassenso de difícil explicação para quem almeja dar passos mais largos na engrenagem eleitoral da capital.
Para uma liderança que construiu sua projeção pública empunhando as bandeiras da liberdade de expressão, da descentralização da informação e do combate ao monopólio da narrativa, impor barreiras à imprensa independente é um contrassenso flagrante.
A mídia alternativa do Distrito Federal cumpre um papel democrático indispensável. São portais e comunicadores que respiram o cotidiano das Regiões Administrativas, alcançam milhares de brasilienses diariamente e levam a informação a lugares onde as lentes da grande mídia raramente chegam.
Ao selecionar quem pode ou não cobrir um evento partidário, cria-se um filtro arbitrária de relevância. O “aqui não” direcionado hoje aos veículos regionais tenta delimitar a importância de quem, na verdade, ajuda a democratizar a notícia. Ignora-se que a política moderna se faz justamente pela ampliação dos canais de acesso, e não pela tentativa de controlar o ecossistema que a notícia percorre.
A matemática eleitoral e o custo das pontes queimadas
Essa incoerência ganha contornos ainda mais complexos quando projetada no horizonte das urnas para a Câmara Alta do Congresso. Ao articular sua candidatura ao Senado Federal, a parlamentar precisa considerar que a engrenagem de um pleito majoritário funciona sob uma lógica completamente distinta das disputas proporcionais.
Para a Câmara dos Deputados, a votação concentrada em um segmento ou bolha ideológica pode ser suficiente. Para o Senado, no entanto, onde a vitória exige obter a maioria absoluta dos votos em todo o território do Distrito Federal, a soma irrestrita de forças passa a ser a única regra viável.
Ao empurrar para a margem os deputados distritais — que são, em última análise, quem tem o pé nas RAs e o contato direto com as comunidades locais —, a presidente do PL-DF queima etapas cruciais da própria base. Ninguém chega ao Senado ignorando o trabalho de quem constrói a política no chão da cidade.
Peso do amanhã
A sabedoria política ensina que as palavras e gestos lançados hoje cobram seu preço amanhã. As barreiras erguidas no presente costumam se transformar nos obstáculos que travam o caminho no futuro.
Erguer muros onde se deveria construir pontes pode até passar uma ilusão temporária de controle ou autosseleção de narrativas. Mas a política é uma esteira contínua. O portal impedido de cobrir a convenção ontem é o mesmo que reportará o cotidiano da campanha amanhã; o aliado isolado no palco hoje é a liderança cuja força fará falta no momento em que cada voto for decisivo na urna.
Hoje se tomam as decisões; amanhã colhem-se os desdobramentos. O tempo, senhor soberano da política, dirá se a tática de afastar aliados e fechar portas se sustentará quando as urnas forem abertas.





































