A política costuma revelar seus contornos mais nítidos nos momentos de tensão. E foi sob esse prisma que a cena desta quarta-feira (25/2) ganhou relevo na Câmara Legislativa do Distrito Federal.
Aliado do Palácio do Buriti, o deputado distrital Rogério Morro da Cruz (PRD) decidiu usar a tribuna da Câmara Legislativa do Distrito Federal para anunciar, de forma enfática, sua negativa em apoiar o projeto do Executivo que trata da capitalização do Banco de Brasília (BRB). Não se discute aqui o mérito de ser favorável ou contrário à proposta — divergências são parte constitutiva da democracia. O ponto sensível é outro: o tempo e o palco escolhidos.
O pronunciamento ocorreu em um ambiente político já fragilizado, de pré-campanha, marcado por ruídos e disputas latentes. Ao levar a discordância para a tribuna, Morro da Cruz ampliou esse ruído, justamente por integrar a base aliada do governador Ibaneis Rocha. A expectativa, nesse tipo de relação, é a de que críticas e ponderações sejam feitas nos canais internos, onde há espaço para ajuste, diálogo e correção de rumos, não sob os refletores do plenário.
O gesto ganha contornos ainda mais complexos quando inserido no tabuleiro eleitoral. A fala do deputado acabou por dialogar, ainda que indiretamente, com interesses da deputada federal Bia Kicis (PL), que também se movimenta na corrida por uma vaga ao Senado. Em política, sinais raramente são neutros; quase sempre carregam destinatários e consequências.
Há, ainda, um dado objetivo que pesa nessa equação. Morro da Cruz figura entre os parlamentares que mais receberam respaldo do governo local. Regiões como São Sebastião e Jardim Botânico, bases políticas do deputado, foram contempladas nos últimos anos com escolas, unidades de saúde, pavimentação, calçadas, obras de mobilidade, regularização fundiária e políticas de expansão habitacional conduzidas pelo Governo do Distrito Federal. Esse histórico constrói não apenas uma parceria administrativa, mas uma expectativa de lealdade política mínima.
No mundo político, a deslealdade não é novidade ,o sistema sabe conviver com ela. O que raramente acontece é sua valorização. Confiança é ativo escasso e caro, acumulado ao longo do tempo e perdido, muitas vezes, em um único movimento. Quando rompida, deixa marcas que costumam acompanhar o agente público por toda a trajetória.
Mais do que um episódio isolado, o discurso desta quarta-feira acendeu um alerta. Em tempos de alianças testadas e projetos em disputa, a forma como se expressa uma divergência pode ser tão reveladora quanto a divergência em si. E, na política, quase sempre é nas crises que se descobre quem permanece e quem escolhe se afastar.









































