“Nós vamos invadir a sua R.A.”: Capelli e o tour político pelo DF

   REPRODUÇÃO WEB

Ricardo Capelli, presidende da ABDI, parece ter encontrado sua trilha sonora ideal: o clássico “Nós vamos invadir a sua praia”, do Ultraje a Rigor. Só que, nesse caso, a invasão não é à beira-mar, mas às 33 regiões administrativas do DF. Como um turista político, Capelli quer “morar” por uma semana em cada R.A., em uma tentativa de se misturar ao povo, entender suas dores e, quem sabe, sair dessa empreitada com o carimbo de “homem do povo”. A proposta, porém, soa mais como um show midiático do que uma conexão genuína com as demandas reais da capital.

Logo nas primeiras melodias, a estratégia já denuncia sua verdadeira intenção: colecionar histórias e imagens que possam servir de munição política para 2026. Com um leve sorriso de canto, ele parece cantar: “Nós gostamos de tudo, nós queremos é mais,Do alto da cidade até a beira do cais”. É evidente que essa turnê pelas R.A.s é menos sobre o presente do que sobre o futuro. Mais precisamente, sobre o Palácio do Buriti.

Capelli, que caiu de paraquedas no DF no meio da crise de 8 de janeiro, ainda tenta desembaraçar o nó de sua desconexão com a cidade. Seu sotaque não combina com o cerrado, e sua agenda parece mais alinhada com os bastidores da política do que com as realidades da Ceilândia ou do Paranoá. Ao propor esse plano, ele não apenas tenta se apresentar como um político que “sente na pele” os desafios da população, mas também quer acumular munição para criticar o governo local. Afinal, atacar Ibaneis Rocha e sua gestão tem sido um tema recorrente para Capelli, que já ensaia seu nome como possível candidato ao Buriti.

A melodia da música segue ressoando. Assim como na letra, onde o Ultraje declara que “A gente tá querendo variar e a sua praia vem bem a calhar”, Capelli tenta se colocar como o salvador que identificará os problemas da cidade.

A verdade é que a vida em uma R.A. não se resume a um tour guiado com roteiro político. Quem mora no Sol Nascente não quer apenas um visitante que durma ali por alguns dias, mas alguém que resolva problemas estruturais. Capelli vai sentir o aperto de quem acorda antes das 5h da manhã para pegar um ônibus?  Vai pagar aluguel com o salário mínimo, espremendo centavos para a próxima feira? Difícil imaginar que ele vai vênciar cotidiano real das pessoas!

Capelli quer criar uma narrativa de proximidade e empatia com o povo. Ao final de sua turnê, ele terá um repertório recheado de fotos e vídeos para exibir na campanha, como quem diz: “Eu estive lá, conheço suas dores, estou ao seu lado”. Tudo com aquele olhar compenetrado que tenta disfarçar a superficialidade do gesto.

No fundo, a proposta de Capelli não passa de uma onda de marketing político cuidadosamente planejada. Assim como na música, o refrão de “nós vamos invadir a sua praia” carrega a ironia de quem chega sem ser convidado, tenta impressionar com gestos simbólicos e acha que pode conquistar o espaço alheio com um discurso ensaiado. Ele quer ser visto como o homem que desceu das esferas do poder federal para ouvir o povo de perto, mas cada movimento revela sua intenção de preparar o terreno para as urnas.

As semanas prometem ser recheadas de momentos “instagramáveis”,se a intenção é disputar o governo do DF em 2026, Capelli terá que remar muito contra a maré. Afinal  população não se impressiona com turismo  eleitoreiro; ela quer convivio e interação genuínos .

Invadir a praia dos brasilienses é fácil; permanecer nela, conquistando respeito e confiança, é o verdadeiro desafio. Enquanto isso, seguimos assistindo a esse show, que mais parece uma turnê de verão: animada, cheia de poses e com uma mensagem clara nas entrelinhas — o palco é tudo o que importa.

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